João Ferreira: “Trabalha-se em média mais de meio ano só para pagar o carro”

João Ferreira: “Trabalha-se em média mais de meio ano só para pagar o carro”

João Pimentel Ferreira desenvolveu o Simulador de Custos de Automóvel, que contabiliza o seguro, o combustível, as revisões, reparações, possível crédito automóvel, desvalorização do veículo, lavagens, eventuais multas ou Imposto Único de Circulação e chega à conta final.

Numa entrevista exclusiva ao Menos um Carro, o programador de software livre, explica o que o levou a desenvolver o simulador, bem como os critérios que teve em conta na concepção da aplicação que também está disponível no nosso portal.

 

O que o levou a desenvolver o simulador de custos de automóvel?

Os portugueses normalmente têm uma relação muito difícil com a matemática; em Portugal poucos se dedicam a fazer contas, nem que as mesmas se resumam a contas de merceeiro. O simulador serviu apenas para demonstrar que, ao contrário do que possa parecer, os verdadeiros custos do carro, podem chegar aos 400, 500 ou mesmo 600 euros por mês. Se pensar que o ordenado médio líquido em Portugal ronda os 700 euros, trabalha-se em média mais de meio ano só para pagar o carro.

Serviu também para demonstrar que, por muito que se diga o contrário, não ter carro e andar de transportes públicos e modos activos é muito, mas mesmo muito, mais barato.

Que critérios teve em conta no desenvolvimento da aplicação?

Os custos totais internos do automóvel. O único custo interno que não foi considerado foi o custo de oportunidade. Se o dinheiro tivesse ficado no banco, no caso mais pessimista, teria rendido algum dinheiro extra. Também não foram consideradas as externalidades, ou seja, os custos que o automóvel provoca com a poluição do ar, acidentes rodoviários, infraestruturas rodoviárias. Por exemplo, só em parcerias público-privdas (PPP) rodoviárias o estado português terá um saldo negativo que rondará os 1.000 euros por habitante.

Através deste simulador o que é que ficamos a saber?

Ficamos a saber o custo interno real que tem o carro. O seu custo real médio por mês, o custo real por ano, e considerando os dados apresentados, ficamos também a saber quanto, no total, o carro já nos custou ao longo do período de posse. O simulador também divide em custos variáveis (que dependem do uso que se faz) e custos fixos, que pagamos mesmo que o carro esteja parado.

Na sua opinião, qual é a despesa que mais acresce no custo do veículo, depois da sua compra?

Combustíveis e desvalorização. No caso de compra a crédito, o custo da desvalorização é em parte imputado às prestações do crédito. Todavia são referidos 12 itens de custos, e parece-me pelas respostas que estes dois custos totalizados contam apenas cerca de 50% a 60% dos custos totais do automóvel. Há que considerar ainda seguro, inspeção, revisões, Reparações/melhoramentos, IUC, parqueamento, portagens, multas e até lavagens.

Qual é o objectivo do simulador?

Esperemos que com este simulador os portugueses façam um uso mais racional do seu automóvel, ou prescindam mesmo do automóvel e o vendam. Portugal tem a terceira maior taxa de motorização da UE, ¼ das importações (2010) foram carros e combustíveis, e a maior causa de morte são as doenças do coração cujo grande factor de risco é o sedentarismo. Os acidentes de viação mataram já três vezes mais portugueses que a guerra colonial.

Mas obviamente têm de ser vistos caso a caso. Há pessoas para quem o carro é fundamental, como pequenos empresários, pessoas que trabalham à noite ou pessoas com acessos de transportes públicos muito deficitários. Todavia, para a grande maioria, estou em crer, é tão-somente puro e egoístico comodismo. E depois há outro grande problema, hoje em dia as pessoas deixaram de se habituar a andar a pé. Tenho um amigo e ex-colega de trabalho que morava no Martim Moniz e trabalhava na Baixa e ia de carro para o trabalho.

Acha que os portugueses têm a noção real do verdadeiro custo que o seu veículo tem ao final do mês?

Não têm e por norma não se interessam por saber. Há uma relação muito difícil entre a matemática e o comum dos portugueses. E então quando aos números se junta o dinheiro, as coisas complicam-se bastante. Há pessoas que me disseram que o simulador estava errado, porque não deveria contabilizar a desvalorização, pois o preço do carro pagava-se tudo “à cabeça” e não saía do bolso todos os meses. Bem, respondi apenas que também poderia fazer um contrato com o mecânico e pagar “à cabeça” 10 anos de manutenção.

Qual é o critério ou critérios que, para si, os portugueses não contabilizam na hora de fazer contas ao automóvel?

Os portugueses nas contas e no dinheiro tendem a ser muito imediatos e então presumem que o único custo que o carro tem é o que lhes sai mais visivelmente do bolso: os combustíveis. Logo há que considerar o preço do carro, quanto pagará de seguro, portagens, e depois com o tempo terá reparações, revisões, é preciso levá-lo à inspeção, e é preciso pagar anualmente ao fisco o Imposto Único de Circulação.

Mas compreendo em parte este autismo. As pessoas são bombardeadas com publicidade a automóveis, com preços que não refletem de todo o verdadeiro custo que terá o carro. Aliás, há vários estudos que referem que a massificação do automóvel está a tornar-se um segundo tabaco com variadíssimas consequências nefastas para a saúde pública.

As vendas de carros têm vindo a diminuir nos últimos anos. O que acha que está a pesar na decisão das pessoas na hora de comprar ou não comprar um carro novo?

Com a crise e a redução do poder de compra, as famílias, felizmente, estão a tomar posições mais racionais no que concerne à sua mobilidade. Mas tal não é de todo animador. Há um estudo que refere que os portugueses são o segundo país de Europa onde há mais pessoas com intenção de comprar carro novo nos próximos dois anos (cerca de 60%) e só não o fazem por questões de falta de financiamento. Assim, por muito triste que seja dizê-lo, a austeridade está a ter um papel positivo na racionalização da mobilidade em Portugal.

Todavia, creio que o governo não soube aproveitá-lo, pois aumentou brutalmente as tarifas dos transportes, e os sindicatos do sector, numa lógica egocêntrica, também não estão a ajudar a alavancar o sistema de transportes colectivos, ao fazerem greves constantemente.

  1. Parabéns ;o)
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